Visões – Capítulo 1 – O Rapto

23/05/2010 at 9:36 pm (Visões)

Eram 6 da manhã quando Ana estava a caminho de casa, suas roupas sujas de barro e seus piercings contrastavam com as roupas formais daqueles que iam àquela hora para o trabalho. O ônibus estava lotado e todos olhavam com desprezo para a garota, que ainda tinha em si o cheiro do suor e das drogas, o cheiro da rave que acabara de sair. Ela desce no centro, onde mora com uma amiga Marina. Ana nunca teve pai, aos sete anos sua mãe foi internada em um centro psiquiátrico, aos 15 a garota fugiu do abrigo em que morava, agora aos 18 trabalhava como garçonete, fazia alguns bicos, levava a vida sem perspectivas ou pensamentos sobre o futuro: somente o presente importava.

Marina dormia quando Ana chegou largando sua bolsa hippie de lado, ávida por um banho. Largou suas roupas no chão do banheiro, soltou os cabelos negros, deixou que a água percorresse seu magro e branco corpo, sentia a água a abraçar, sentia a cabeça rodar, vinham em sua mente aqueles estranhos pensamentos, o quarto branco, a dor, os vultos brancos passando ao seu redor em incrível velocidade. Sempre que Ana usava algum “doce” ela se via em cenas que ela nunca viveu. Ou viveu e esqueceu. Ela simplesmente não sabia como as lembranças iam parar lá, apenas sabia que elas moravam dentro dela, e que eram libertas quando alguma substancia ilícita adentrava em sua morada.

Marina saiu para o trabalho, era enfermeira em um hospital próximo e naquele sábado pegara o turno da noite. Ana ainda dormia quando a amiga se foi, ela não percebeu, mas a temperatura no quarto começou a cair estranhamente. E lá vinha mais uma vez o sonho, desta vez mais nítido, e enquanto o balé dos vultos brancos rodopiavam ao redor de Ana, ela se viu sair do próprio corpo e enxergar na mesa sua mãe, a expressão de dor, os estranhos utensílios, sentiu o ar lhe faltar, e a vontade de gritar, e gritou com sua mãe em uníssono acordando a tempo de ver uma fantasmagórica luz acima de si antes de desmaiar.

Ana acordou em um quarto, todo branco, as paredes acolchoadas, a porta de ferro com uma pequena abertura. Teria ela tido o mesmo destino de sua jovem mãe? Ela evitava pensar, mas por que mesmo sua mãe fora enviada para aquele lugar? Ela não se lembrava de muita coisa.

_Tem alguém ai?

Nenhuma resposta.

Olhou pela pequena abertura, e tudo o que conseguiu ver foi um corredor, tão branco quanto o quarto, com várias portas iguais a sua. Quanto tempo passara ali? Começou a pensar em todo o tempo perdido, na vida que levara.

Um vapor úmido começou a invadir o local, caleidoscópios se formam na visão de Ana que desmaiou novamente.

1 Comentário

  1. Maíra disse,

    Ê! Bem vindos à blogosfera :)
    Com um ótimo começo, aliás ^^

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